
Há dois modos de chegar à Península de Maraú. Por terra, pela BR-030, a estrada que acompanha a península no comprimento. Ou pela água, saindo do cais de Camamu numa lancha, rumo a Barra Grande. Quase todos escolhem a água, e não é só por comodidade.
Camamu fica no fundo da baía que leva o seu nome, uma das maiores do Brasil. Do cais não se vê o mar aberto: vê-se manguezal, ilha, canal. A baía é um mundo fechado, de água quieta, que só aos poucos se abre.
A lancha sai e, por um trecho, a margem vai junto. Depois se afasta. Passa-se ao largo de ilhas, e a água muda de cor conforme o fundo. Quem faz a travessia pela primeira vez olha tudo. Quem já fez muitas olha para um ponto só, lá adiante, onde a baía encontra o oceano.

Esse ponto é a Ponta do Mutá. Ali está o farol que marca a entrada da baía, e ali, do lado de dentro, fica Barra Grande. De um lado da ponta, água de baía. Do outro, Atlântico. A península inteira é assim: uma língua de terra com duas margens que não se parecem.
A vila de Maraú, que dá nome à península, fica na margem da baía e nasceu de uma aldeia de capuchinhos do começo do século XVIII, chamada Mayrahú. O nome é mais velho que a estrada e que qualquer mapa de viagem. Passou da aldeia à vila, da vila à península, e hoje nomeia um trecho inteiro de costa.
A travessia faz um serviço que a estrada não faz. Ela separa. O que ficou no cais, ficou: o carro, a pressa, a lista do que faltava fazer. Entre uma margem e outra há um intervalo em que não se está em lugar nenhum, e esse intervalo é a porta.
Entre uma margem e outra não se está em lugar nenhum. Esse intervalo é a porta.


A baía sempre foi caminho. Os saveiros que ainda se constroem em Cajaíba, na outra margem, existem porque ali se andou primeiro por água. Quem chega de lancha repete, sem saber, o caminho mais velho do lugar.
Do lado do mar, a península guarda o que a baía não tem: os recifes de Taipu de Fora e a Lagoa do Cassange, de água doce, separada da praia por uma faixa estreita de terra. Quem atravessou a baía de manhã pode, à tarde, estar diante do oceano. Poucos lugares oferecem as duas águas a uma distância tão curta.
Na volta, a mesma água. Só que agora se olha para trás. A ponta diminui, o farol some, o manguezal se fecha de novo. Há quem deixe a lancha para o dia seguinte. Ninguém estranha.
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