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Rio Aquidauana atravessando a serra entre paredões

NotasLugar

A pedra vermelha

Em Piraputanga, a serra, o rio e o trilho correm lado a lado.

LugarSerra de Maracaju, Mato Grosso do Sul

Quem vem pela BR-262 e toma a MS-450 percebe a mudança antes de qualquer placa. A estrada estreita, a serra encosta, e de repente há um paredão vermelho de um lado e um rio do outro. Entre os dois cabem a pista, um trilho de trem e três distritos pequenos: Camisão, Piraputanga e Palmeiras.

O paredão é a borda da Serra de Maracaju. A pedra é arenito da Formação Aquidauana, depositado no período Carbonífero, há cerca de trezentos milhões de anos. Diante dela, qualquer data humana fica pequena. A cor muda com a luz: mais clara de manhã, mais funda no fim da tarde.

O rio é o Aquidauana, que corre ao pé da serra e segue para o Pantanal. Nele vive a piraputanga, Brycon hilarii, o peixe que deu nome ao distrito. É raro um lugar ter nome tão exato: diz o que há na água, e a água continua dizendo o mesmo.

Rio Aquidauana entre mata ciliar
Piraputanga, Aquidauana, MS

O trilho chegou antes do asfalto. A Noroeste do Brasil saiu de Bauru, no interior paulista, em 1905, e em 1914 alcançou Porto Esperança, na beira do Pantanal. Atravessou a serra por aqui, acompanhando o rio. Os trilhos passam pelo distrito, entre a água e a pedra.

Aquidauana, a cidade, é de 1892, mais velha que a ferrovia. Foi o trem, porém, que ligou este canto do Brasil ao resto do país. Hoje a linha está calada. O trilho ficou, e quem anda pelo distrito ainda o atravessa.

Desde 2000, o trecho é protegido. A Área de Proteção Ambiental Estrada-Parque de Piraputanga acompanha a MS-450 por cerca de quarenta quilômetros, entre Aquidauana e Dois Irmãos do Buriti. A ideia de uma estrada-parque é simples: o caminho já é o lugar. Não se passa por ele para chegar a outro ponto; percorre-se devagar, parando.

O caminho já é o lugar.
Rio entre paredões da Serra de Maracaju, Mato Grosso do Sul
Serra de Maracaju, Aquidauana, MS
Paisagem em Piraputanga, Mato Grosso do Sul
Trilhos da antiga RFFSA, Aquidauana, MS

Em Camisão, sobe-se o Morro do Paxixi. Lá de cima, o mirante mostra o que embaixo só se adivinha: a serra de um lado e, do outro, a planície, plana até onde a vista alcança. Embaixo, o rio parece um fio. O trilho, outro.

Piraputanga não tem mar, e é por isso que está entre os lugares da InnC House. Há um Brasil de dentro, de rio de correnteza e pedra antiga, que o litoral desconhece. O silêncio é outro. A noite é outra. E a pedra, no fim do dia, muda de cor diante de quem ficou para ver.

Volta-se a um lugar assim por um motivo difícil de explicar a quem só conhece praia. Não há o que fazer, no sentido em que as cidades entendem a expressão. Há o que olhar, e o que ouvir. Depois de alguns dias, percebe-se a falta que olhar e ouvir faziam.