
NotasPaisagem
O coqueiro veio de fora
A árvore que parece ter nascido com a costa chegou de navio, em 1553.
Nenhuma árvore parece mais brasileira que o coqueiro. Está no cartão-postal, na canção, no fundo de toda fotografia de praia do Nordeste. E no entanto não é daqui. Segundo a Embrapa, o coqueiro foi introduzido no Brasil em 1553, na Bahia, trazido de Cabo Verde.
Veio de navio, portanto, e antes disso tinha vindo de mais longe ainda. Encontrou na costa nordestina o que queria: areia e sal. Espalhou-se. Em menos de cinco séculos tornou-se a própria silhueta do litoral.
Em São Miguel dos Milagres, o coqueiral é a segunda linha da paisagem. A primeira é o recife, na água. Entre as duas fica a praia. Caminha-se à sombra dele de uma vila à outra, e é raro o trecho de areia de onde não se veja um.
Mais ao sul, na Bahia, outra palmeira fez a mesma viagem. O dendezeiro é nativo da África e atravessou o Atlântico. Hoje, segundo a Embrapa, os dendezais ocupam a costa baiana de Itaparica a Maraú. O trecho ganhou o nome dele: Costa do Dendê.

Na Península de Maraú, as duas palmeiras convivem. Uma dá a água e a sombra; a outra, o azeite que colore a cozinha baiana. Nenhuma é da terra, e a terra não se imagina sem elas.
Há uma ideia aí que interessa a quem chega. Ser de um lugar não é só ter nascido nele. O coqueiro chegou depois, ficou, e hoje ninguém lhe pede certidão. O que fez foi simples: deu sombra, deu fruto, serviu a quem já estava. Pertence porque serviu.
Nem toda chegada é assim. Há plantas que vêm de fora e tomam tudo, e há gente também. A diferença entre uma coisa e outra não está na origem: está no modo. É uma régua exigente, e convém tê-la à vista quando se constrói perto de um recife ou à margem de uma baía.
Pertence porque serviu.


Vale o mesmo para os nomes. Costa do Dendê, Costa dos Corais: um trecho de litoral leva o nome de uma planta que veio de outro continente; o outro, o de um bicho que constrói pedra debaixo d'água. O mapa registra o que o lugar tem de mais seu, e nem sempre o mais seu é o mais antigo.
Da próxima vez que a sombra de um coqueiro parecer a coisa mais natural do mundo, vale lembrar: ela tem data. 1553. Antes disso, a praia era a mesma, e não tinha essa árvore. O que parece eterno numa paisagem quase sempre chegou um dia, e teve de merecer ficar.
É o que se espera de quem vem depois. Com o coqueiro, deu certo.
Outras Notas

Voltar
Ir é conhecer um lugar. Voltar é outra coisa.
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A travessia
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O que a enseada guardou
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